Vandilo em outros contextos

01/11/2016

A FILA DO FRANGO

 

Quase sempre aos sábados e/ou domingos vou com o um amigo, também professor, comprar frango na quadra 604, mais precisamente na Avenida Palmas-Brasil, e sempre me chama muita atenção o fato de que a maioria das pessoas que está na fila para, escolha e pagamento, ser do sexo masculino. A princípio, quero dizer que moro sozinho e, meu amigo, que é casado, deixa a esposa “quase sempre” em casa preparando a comida, quase sempre, quer dizer que, nesse caso, ela não se enquadra na maioria descrita abaixo. Seja atraída pela descontração do momento, seja pelo afã da conversa costumeira que se desenrola calorosamente entre nós antes, durante e depois do almoço, a sua presença é sempre uma presença ativa e nunca despercebida.

Pensar sociologicamente nos faz observar em qualquer situação, acontecimento ou momento, um fenômeno sócio-antropológico, ou seja, constatar as interrelações e interações que se constituem como causa e efeitos para determinados fatos. Dessa forma, é inevitável que as perguntas surjam e fiquem borbulhando em nossa mente. Nesse caso, as principais interrogações que me saltam aos olhos e mente, são sempre em razão de questões relacionadas a gênero, costumes, hábitos, poder e papéis sociais. Para ser mais preciso, seguem as principais questões e hipóteses: Por que será que sempre tem mais homens do que mulheres comprando frango? Será que as mulheres estão preparando o almoço? Será que eles moram sozinhos? Será que o mesmo acontece todos os dias ou apenas nos finais de semana? Por que as poucas mulheres que estão na fila vieram, será que moram sozinhas?

Eis a análise possível: Como não realizei uma pesquisa nem fiz coleta de dados, o que se segue é fruto de pura observação e opinião. Tradicionalmente a diferença entre os papéis sociais em nossa sociedade existem desde antiguidade definidos por idade ou sexo. O homem saia para caçar e a mulher ficava em casa cuidando dos afazeres domésticos e das crianças, portanto, vemos na fila do frango a repetição dos valores construídos a séculos. Para ter uma ideia, em um desses dias contei oito homens e duas mulheres na fila, uma diferença muito significativa. Nada de novidade para a nossa sociedade assim estruturada. É bom lembrar que os valores mudam, podem e devem mudar em muitos casos e sentidos. A dinâmica cultural nos mostra que não adianta desejar que as coisas continuem com estão, sempre haverá alterações e mudanças de comportamentos que só serão reconhecidas depois de um certo tempo, daí que uma lei quando é alterada, a sociedade já adotou os novos costumes. No caso em questão, vemos que existe uma mudança em curso; é fato que as mulheres conquistam cada vez mais espaços antes só permitidos aos homens, mas vemos também que apesar de aparecer com algo muito forte, na prática não é tão visível assim. Penso na fila do frango ampliando-a para outras situações nas quais a presença feminina tem crescido, mas, como se sabe, ainda não é como deveria ser, nesse sentido podemos dar como exemplo o fato de que, enquanto se constata um alto crescimento da presença das mulheres nas universidades, o mesmo não ocorre na representação política, nem em cargos de liderança nas empresas.

No início falei de gênero, e por isso não posso deixar de dizer que se é assim para as mulheres, o que diremos em relação às outras representações sexuais, travestis, transgêneros, transsexuais? É mais incomum e mais raro encontrarmos essas pessoas nas funções de atividades tradicionais do cotidiano, lentamente isso tem mudado e de uma forma considerável. Para mim é interessante vivenciar saber e ver que o tempo nos mostra que outras tendências e certas lutas no exercício das práticas humanas e sociais são possíveis, que essas mudanças causam certos incômodos e intolerâncias, mas acabam se tornando rotina, para não dizer normalidade, apesar da má vontade de parte da população que prefere o comodismo da tradição. Exemplo disso é o caso do divórcio, que quando ainda não era lei, ou seja, alguém que fosse separado causava muita estranheza e que, hoje em dia, ser divorciado não é mais uma questão, ninguém se surpreende nem discrimina outra pessoa por esse motivo.

Creio que a vida, tanto a biológica quanto a social, funciona em ciclos, nada é linear nem para sempre, não existe um fim que justifique a continuidade daquilo que nos seja mais caro, a não ser a busca constante pela justiça que, dito em outras palavras é o equilíbrio. Como diz uma música cantada por Zizi Possi, “a vida leva e traz, a vida faz e refaz”.

 

Palmas, 01 de novembro de 2016.


Escrito por Vandilo às 17h55
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29/08/2016

Memória viva e a transformação pelo saber

José Vandilo dos Santos

Os estudos sobre metodologia científica e a construção do saber reconhecem como tipos de conhecimento: o senso comum, a religião, a filosofia, a ciência e, para alguns autores, além destes tipos, também são considerados o esporte, a mitologia e a arte. O esporte, entre outras coisas, pela produção de conhecimentos sobre anatomia e os movimentos que o corpo humano é capaz de produzir e, a arte, pela importância dada à técnica relacionada às concepções sobre criatividade, linguagem estética e beleza que ultrapassam a racionalidade humana. Tradicionalmente à ciência cabe o papel de uma aproximação mais contundente com a verdade, tendo em vista o rigor e a apropriação sobre a objetividade dos fatos. Não desconsidero os méritos da ciência, mas particularmente sempre acreditei que a arte é o tipo de atividade que mais se aproxima da “verdade”, digamos, das verdades possíveis; uma vez que somente ela permite unir, independentemente do tempo, do rigor acadêmico e das regras morais, uma conjunção de sentimentos, relações, movimentos e processos dialéticos, por vezes, inconscientes, mas não mesmos importantes e, assim, atingir um resultado plausível, aceitável e empoderador.

Na noite da última sexta estive mais uma vez na escola Daniel Batista, na quadra 508 norte de Palmas-To, onde reside a maior parte da população do antigo povoado Canela. Desta vez, fui como membro da banca examinadora do TCC - Trabalho de Conclusão de Curso, intitulado: Movimentando memórias: Teatro documentário sobre o povoado Canela do Tocantins, da acadêmica do curso de Teatro da UFT, Marilúcia Abreu Lima, moradora da quadra e ex-moradora do antigo-Canela, quando ainda existia no seu espaço de origem, às margens do rio Tocantins, antes da inundação por conta da construção do lago da usina de Lajeado.

Marilúcia é professora do ensino fundamental e o seu trabalho foi, na verdade, um artigo, fruto da análise de uma peça sobre a temática da memória da comunidade que ela mesma dirigiu e encenou juntamente com a comunidade escolar. Marilúcia é uma daquelas professoras que fazem a diferença por se empenhar num projeto que busca dinamizar as suas atividades na escola, agregando novos conhecimentos e pessoas, sem medo de errar.

Para mim foi uma experiência muito gratificante, por várias razões; a principal delas é que como já desenvolvi um trabalho sobre questões relacionadas à memória e identidade sobre a mesma comunidade, pude avaliar de forma mais objetiva, a profundidade do resultado da pesquisa de Marilúcia. Sabemos que a memória é seletiva, ou seja, escolhemos sempre o que queremos lembrar, uma vez que essa memória parte do presente para o passado e não o contrário, como é comum pensarmos. É aí que reside a maior importância do resgaste de uma memória como a do antigo-Canela, pois sabemos que a memória é viva e não fica apenas nas lembranças saudosistas de um passado bucólico e romântico, no qual os moradores viviam com abundância de alimentos, água e peixes, nesse caso, a memória cria um sentido que mexe com a autoestima das pessoas e possibilita que essas mesmas pessoas e seus descendentes, agora em outro espaço, dialoguem objetivamente com a realidade que elas vivem na atualidade, para, que daí, encontrem estímulo e motivação que reforcem a luta por questões cotidianas para uma melhor qualidade de vida, diante das perdas que o impacto da mudança trouxe. A ressignificação da identidade constatada na minha tese no doutorado (Memória e a dimensão política da identidade na comunidade Canela – Estado do Tocantins (2000 -2008), apresentada no IFCS-UFRJ, no ano de 2011), é comprovada por atitudes como essa da professora Marilúcia, ao mostrar que ela pode sim, contribuir para que o Canela continue existindo em outro contexto e a partir de uma nova dinâmica; até porque devemos saber que nenhuma cultura é estática. Marilúcia consegue “dizer tudo” e, muito bem, ao utilizar-se de uma citação de Bergson, quando esse autor afirma que “a memória prolonga o passado no presente, enquanto a lembrança é a representação de um objeto ausente”. O ato político realizado por Marilúcia não ficou guardado no baú da história, está presente na dinâmica do “Teatro documentário” que ela conseguiu levar para escola e atingir a todos e, principalmente, às crianças que darão continuidade a seu trabalho.

A opção da professora pela técnica da pesquisa participante e/ou pesquisa ação, demonstra o quanto é possível à universidade levar para além dos seus muros reflexões teóricas consideradas rebuscadas, já que o saber é uma construção social que tem um ritmo próprio, mas que a sua maior sofisticação está em seu poder transformador, quando busca soluções para problemas reais. Assistimos com a apresentação de Marilúcia, que o saber, que é construído socialmente, jamais deve ficar engavetado nas bibliotecas, e o mais interessante de tudo, é que essa produção pensada entre muros, não tenha que ser repassada como um saber superior que desce do pedestal em busca de tradutores, mas, sim, como uma troca, uma comunhão e, finalmente, como um diálogo horizontal em construção permanente. 

 

REFERÊNCIAS:

BERGSON, Henri. Matéria e memória: ensaio sobre a relação do corpo com o espírito. São Paulo: Martins fortes, 1999.

GIL, Antonio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. São Paulo: Atlas, 1999.

LIMA, Marilúcia Abreu. Movimentando memórias: Teatro documentário sobre o povoado Canela do Tocantins. Artigo válido como TCC do curso de Teatro da UFT, Palmas-To., 2016.

SANTOS, José Vandilo dos. Memoria e identidade. Curitiba: Appris, 2015.

SILVA, Antonio Carlos Ribeiro da. Metodologia da pesquisa aplicada à contabilidade. São Paulo: Atlas, 2003. 

 

 


Escrito por Vandilo às 14h35
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03/10/2015

Palmas Futebol e Regatas e a Sociedade Esportiva Canela: uma relação identitária.

José Vandilo dos Santos[1]

 

Por uma coincidência, no último final de semana, próximo passado, mais precisamente no sábado, dia 26, que foi marcado pela realização do 9º Salão do Livro e o jogo do Palmas contra o Clube do Remo de Belém do Pará, primeira decisão pela Série D do campeonato brasileiro, foi também marcado por dois acontecimentos importantes para mim. O primeiro deles foi o lançamento do meu livro Memória e Identidade (uma adaptação da minha tese de doutorado apresentada na UFRJ em 2011), que trata da trajetória do antigo povoado Canela e os impactos sofridos, tanto pela construção de Palmas, quanto, principalmente, pela construção da Usina Hidrelétrica de Lajeado que obrigou a saída dos moradores para outros espaços na capital ou entorno dela, levando-os a uma reestruturação de sua identidade enquanto comunidade. O outro acontecimento importante foi a minha presença ao estádio Nilton Santos para assistir ao jogo do Palmas. Nada demais, não fosse a forte referência encontrada por mim nos depoimentos dos moradores do Canela, durante a realização da coleta de dados para a minha pesquisa sobre as estratégias de sobrevivência dessa população ainda no seu lugar de origem.

Nesses depoimentos a origem do clube se confunde com a história da Sociedade Esportiva Canela, justificando o meu interesse em aproveitar o gancho e conhecer melhor o clube para entender como ele vai se afirmando na cena esportiva de Palmas. Vale a pena citar o trecho do meu livro onde comento sobre o assunto:

Contam os moradores, com orgulho, que o primeiro time de futebol que se tornou profissional e que representa a capital em competições estaduais e nacionais, o Palmas Futebol e Regatas, criado em de 31 de janeiro de 1997, utilizando a documentação da Sociedade Esportiva Canela, teve origem entre os moradores do Canela, onde era comum, aos domingos pela manhã, se juntarem para a famosa “pelada”, com a participação de uma torcida que era formada pelos moradores e a vizinhança, em torno de um bar denominado “Mangueiras Bar”. (SANTOS, 2015, p.66)

Na minha intenção de, através da memória dos moradores do antigo Canela, discutir a ressignificação da sua identidade no novo espaço de convivência, vejo que a importância dos valores culturais são determinantes para a construção de uma autoestima que fará toda a diferença no momento de se enfrentar a vida com as suas adversidades. O convívio dessas pessoas com a população de Palmas requer um jogo de negociação constante para uma autoafirmação e sobrevivência digna. Podemos afirmar que o povo do Canela deve se reconhecer nas raízes culturais e, em alguns casos, nas relações complexas e subjetivas das forças de poder que construíram a capital, sendo essas memórias, na maiorias das vezes, não-verbalizadas, ou seja, não apareceram nos depoimentos orais, estão guardadas nas expressões faciais por uma sensibilidade que o tempo não consegue apagar.

Assim como a Igreja Católica, o futebol no Brasil ainda faz parte da preferência da maioria da população e, apesar dos sinais de mudança nessas áreas, o primeiro caso se dá pelo crescimento das igrejas evangélicas, principalmente as pentecostais, devido, entre outros fatores, a movimentos migratórios e ausência do Estado nas periferias das cidades brasileiras. Enquanto o segundo caso, podemos apontar como uma das causas, a decepção dos torcedores com a derrota da seleção na Copa do Mundo, abrindo caminho para a ascensão de outras modalidades esportivas como o Vôlei. Mas o futebol ainda segue sendo a principal modalidade esportiva no país, conseguindo agregar importantes somas de valores financeiros, mas também promover sociabilidade, identificação afetiva e sentimentos de pertencimento. A bandeira do “time de coração” traduz a paixão, defesa e apego ao lugar que, infelizmente, em muitos casos, se exacerba chegando ao fanatismo e à violência. Não é atoa que o que mais ouvi entre os torcedores do Palmas nos momentos de passes errados entre os jogadores foi uma alusão preconceituosa aos maranhenses, como uma forma de marcar uma diferença no sentido entre o que deve ser bom ou ruim, inferior ou superior (assunto que trato de forma mais aprofundada em outro artigo). Neste caso específico fica demonstrada que a necessidade de comparação e a contrastividade fazem parte da construção de uma identidade e autoafirmação.

Citando Bateson (1972), ao analisar a sociologia do futebol, Giulianotti (2010), p.8), afirma que “em qualquer lugar, o futebol nos fornece uma espécie de mapa cultural, uma representação metafórica, que melhora nossa compreensão daquela sociedade”, acrescentando que: “sua centralidade cultural, na maior parte das sociedades, significa que o futebol tem uma importância política e simbólica profunda, já que o jogo pode contribuir fundamentalmente para as ações sociais, filosóficas e identidades culturais de muito e muitos povos”.

 Confesso que sou apenas um torcedor-simpatizante, que não costuma frequentar estádios de futebol e muito menos jogar bola, mas para mim a vida acontece nas conexões entre múltiplos fatores que formam um desenho possível. A minha presença no jogo do Palmas teve o olhar antropológico que, acima de tudo, vislumbrou captar as nuances da correlação de forças que estão atreladas à construção do amor ao time, e que representa em última análise, o curso da construção da identidade da cidade e do estado do Tocantins.

A torcida pela vitória do Palmas, hoje em Belém, é obvia, mas desejo que esta seja o prenúncio de melhoras, não somente do time no cenário nacional, mas também em ganhos reais na cultura, educação, economia da cidade.

 

REFERÊNCIAS

BATESON, G. Steps to an Ecology of Mind. New York: Ballantine, 1972.

GIULLIANOTTI, Richard. Sociologia do futebol: Dimensões históricas e socioculturais do esporte das multidões. São Paulo: Nova Alexandria, 2010. SANTOS, José Vandilo dos. Memória e identidade. Curitiba-PR.: Appris, 2015.

 



[1] Antropólogo e Professor da UFT. 


Escrito por Vandilo às 09h28
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30/08/2013

Desencontro das águas


O Estado do Tocantins é marcado pelo percurso de dois grandes rios, o Araguaia e o Tocantins. Rios que atravessam todo o território estadual e se encontram na região conhecida pelo nome de Bico de Papagaio, localizada bem ao norte, fronteira com os estados do Pará e Maranhão.

Esse encontro natural pode dizer muito sobre a população que habita essa terra, mas ao pensarmos inversamente sobre o sentido do desencontro dessas águas, percebemos também, que somos todos ribeirinhos - indígenas, quilombolas, migrantes de várias partes do país - separados por águas barradas por hidrelétricas. Pessoas cortadas por injustiças, vivendo na condição de sobreviventes, bombardeados por projetos megalomaníacos de modernidade, quase sem voz, sem vez e sem certezas.

 

Água é vida, e nós somos vida e água. Diante de tantas promessas, nossas águas não se encontram, estão cortadas, represadas, desalinhadas da imagem que temos do desenho original. E o nosso propósito será sempre dialogar, juntar e ajustar criticamente aquilo que parece correr em paralelo. Nadar sob a falta de direito é nadar sobre as águas das incertezas que invadiram o espaço delimitado pelos que tentam transformar tudo em nome do progresso.


Escrito por Vandilo às 11h59
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20/08/2013

Tapete vermelho – o debate e o filme

 

Outro dia fui convidado pelo professor João Nunes e a professora Kildes para participar como debatedor num projeto de exibição de filmes na Unitins, em Palmas. O filme a ser exibido foi “Tapete Vermelho”, uma produção de Luiz Alberto Pereira, destacando as atuações de grandes atores como Matheus Nachtergaele e Gorete Milagres. Reuni no texto que segue algumas das observações que fiz na ocasião. Espero que, tais reflexões, sirvam para despertar outras reflexões e, assim, contribuam para futuros debates sobre essa história tão sugestiva e divertida ao mesmo tempo.

O filme retrata as contradições da modernidade no Brasil, à medida que discute a relação dos costumes de uma família da zona rural e os valores das pessoas que residem na cidade. Nesse sentido, encontramos uma reflexão sobre o rural versus o urbano, mostrando o sensível e o cotidiano a partir de barreiras culturais que demonstram a riqueza do imaginário popular, além dos valores e as representações mentais que dialogam com a possibilidade de respeito à diferença.

Na antropologia existem duas correntes teóricas bastante importantes que nos ajudam a compreender a problemática colocada pelo filme: o evolucionismo e o funcionalismo. Quem assistiu ao filme sabe que trata-se de um pai de família que sai com a esposa e o filho para cumprir uma promessa que fez ao pai, ou seja, levar o filho para assistir um filme de Mazzaropi, tarefa que não é fácil de cumprir, tendo em vista a dificuldade de encontrar um cinema ou um cinema que exiba um filme do gênero e, por isso, ele vai passando de cidade em cidade e se deparando com todo tipo de situações e preconceitos. A partir de sua trajetória podemos perceber a noção de cultura superior e inferior colocadas pelo evolucionismo no momento em que essa teoria trata da hierarquia entre os povos, de forma que deixa clara a ideia de que um costume evolui com o passar do tempo, numa visão linear e positivista. Por outro lado, temos o funcionalismo que ao combater essa postura evolucionista apresenta uma visão de que cada cultura tem um sentido dentro da sua própria dinâmica, sem comparações, deixando evidente que não existe superioridade entre as culturas, nem julgamento de valor, cada cultura tem a sua lógica própria como podemos encontrar no livro “Relativizando” do antropólogo Roberto DaMatta.

O personagem do pai – Quinzinho – é um homem que tem autoestima. Isso é muito importante de ser citado, já que ele se mostra como um ser frágil, inocente e até mesmo ignorante aos olhos das pessoas da cidade, mas na verdade ele é uma pessoa forte e determinada que sabe o que está fazendo e que nunca perde o seu foco. Ele atua no seu tempo cronológico e emocional sem perder a sensibilidade e sem perder os seus valores quando em nenhum momento apela aos oportunismos que a modernidade nos impõe.

É interessante, também observar, que a família do Quinzinho mantém a espontaneidade que em nada tem a ver com a atitude blazé dos citadinos que assimilam a cultura como um produto da indústria de massa, situações que podem ser observadas em filmes como Narradores de Javé e 2 filhos de Francisco na medida que estes filmes trazem o choque entre o tradicional e o dito moderno. Outro autor que dispõe de uma obra importante que nos leva a essa linha de raciocínio é o sociólogo José de Souza Martins no livro “A sociabilidade do homem simples” que trata da “vida cotidiana fragmentária e aparentemente sem sentido”, ou seja, como o moderno e os signos da modernidade são incorporados pelo popular.

 

DAMATTA, Roberto. Relativizando: uma introdução à Antropologia Social. Curitiba, Criar, 1989.

 

MARTINS, José de Souza. A sociabilidade do homem simples – Cotidiano e História na modernidade anômala. São Paulo: Contexto, 2008.


Escrito por Vandilo às 16h33
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10/04/2013

Em outros contextos

Procurando um título para o meu blog, acabei pensando na dicotomia - corpo/alma. Acredito que somos uma ideia que habita um corpo. Somos uma energia concentrada num corpo que circula por ai, algo assim, ou mais, talvez apenas um aglomerado de bactérias em constante batalha.

Eu sou também um texto. Como qualquer outro escrito criado e inventado para comunicar uma história. Os meus textos divulgam o que penso e mais do que isso, dizem o que sou. Por isso pensei que "Vandilo em outros contextos" seria um bom título ou tema para os minhas crônicas no blog. Prefiro pensar o social a partir do indivíduo, isso deve explicar a minha opção de sempre me colocar no texto. Sou carente no momento de sentar para escrever, minha solidão se exacerba e se traduz na compulsão por café, minha única companhia nesses momentos, algo diferente do que acontece quando estou lendo um livro, por exemplo. Nos momentos da leitura o autor do livro ocupa um lugar que preenche a minha solidão.

Os textos nesse blog são as minhas versões sobre o que vejo no mundo, minhas experiências e interpretações da vida que podem aparecer em prosa ou poesia. Esses textos são ensaios que pretendo aprofundar depois, mas talvez esse depois nunca chegue. Digo isso, porque não faço uma correção ortográfica rigorosa. Penso que se eu resolver publicá-los em forma de livro pedirei a algum profissional para assim proceder. Talvez eu ainda subestime o poder da internet na propagação das suas publicações, mas entendo que por enquanto são apenas impressões livres sobre o que me vem à cabeça, sobre algo que estou lendo ou sentindo no momento. Apenas um esboço.

Leiam com carinho e deixem seus comentários.

Abraço a todos.

 


Escrito por Vandilo às 13h28
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O ócio e o trabalho

 

Tenho lido sobre o ócio. E não se fala em ócio sem lembrar no significado do trabalho. Normalmente considerado como um fardo, que lembra cansaço, e que as pessoas desejam se livrar o mais rápido possível. O trabalho é o labor. O tempo perdido em atividade geralmente repetitiva realizada por obrigação, sem prazer, pela classe trabalhadora, nos moldes em que Marx definiu em sua clássica obra – O Capital.[1] No capitalismo o trabalho é fundamental para que se possa lutar pela sobrevivência. É o trabalho quem permite a reprodução dos trabalhadores enquanto força de trabalho que não consegue acumular o suficiente para se livrar dele. E ai, é que vem a contradição. A ideologia do sistema capitalista afirma que se houver uma acumulação de capitais, o indivíduo terá a possibilidade de ser livre e gozar dos prazeres que o mercado oferece. Mas quando é que podemos afirmar que alguém atingiu o suficiente? Para o capitalismo nada nunca é suficiente, nem nunca será. Enquanto estivermos sob esse sistema que promove o consumismo será assim. Pois é, isso é duro. E saber que precisamos trabalhar até o final da vida é muito duro. Ter consciência de que é explorado o tempo todo também é muito duro. Então, qual seria a importância de pensar sobre o ócio? O que pensar sobre viver o ócio? Afinal, o que seria mesmo o ócio?

Antigamente a nobreza vivia o ócio. Realizava saraus de poesias, onde também se falava sobre arte, filosofia e política à vontade; apreciava-se o belo sem tempo determinado para terminar a contemplação. Mas a nobreza tinha os escravos que trabalham para que ela pudesse viver tais momentos sem culpa. Viver para essas pessoas era um desfrute do cotidiano que se revelava na ostentação da riqueza, geralmente herdada. Muitas dessas pessoas com o advento do capitalismo e a ascensão da burguesia preferiram se juntar aos bandos de moradores de rua à vagar pelas cidades à ter que trabalhar[2].

Hoje com o aperfeiçoamento da máquina, com o desenvolvimento da informática e a alta tecnologia, podemos pensar novamente no ócio. Domenico de Masi é o principal pensador e sociólogo contemporâneo que anda pelo mundo divulgando e defendendo essas ideias. O seu livro o ócio criativo[3] é um importante ponto de referência para quem deseja se inteirar sobre essa questão. O autor propõe que se diminua o tempo dedicado ao trabalho formal e que possamos dispor um tempo livre não para cultivar a preguiça, mas para que possamos pensar mais, criar novas ideias a partir da observação em leituras, cinema, teatro entre outras atividades. Para fazer política é preciso ruminar, assim afirmava o saudoso Brizola ao dizer que fazia isso sentado no seu apartamento em Copacabana, portanto, o mesmo serve para quem deseja estudar, ler ou escrever, ou seja, precisamos ruminar. Voltando a Domenico, ele propõe, por fim, que, se todos trabalharem menos, teremos mais trabalho com uma carga horária de menor e mais tempo livre para todos, consequentemente uma sociedade menos consumista e com uma diferente noção de acumulação.

É bem verdade que o indivíduo trabalha como foi socializado,[4] e que a concepção que temos sobre o trabalho vem do aprendizado na infância. O que temos por objetivo com o trabalho vem daí, uma fase cruel, tendo em vista que nesse período ainda não dispomos do discernimento suficiente para uma decisão sobre o que pretendemos da vida. O que predomina nesse modelo tradicional de trabalho burguês, é a pressão técnica, que expõe o trabalhador ao assédio moral e não permite que ele se movimento livremente.

Portanto, é possível que a partir de agora, possamos vislumbrar o que para muitos não passa de uma utopia, no limiar do século XXI, com as conquistas tecnológicas cada vez mais avançadas, possamos, enquanto humanidade, repensar o significado do trabalho como uma atividade criativa, e que seja uma atividade fundamental na transformação da natureza, realmente ao nosso favor, na qual as pessoas encontrem prazer e consigam através de uma disponibilidade maior de tempo, um encontro com a sua espiritualidade e liberdade, no sentido demasiado humano,[5] algo como pensou Nietzsche, ou seja, um ser humano dotado de muitas possibilidades que são recalcadas pelo sistema que nos oprime.  



[1] MARX. Karl. O Capital. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1968.

[2] Ver os artigos: JESUS, Cristiano. Tempo livre para criar. Filosofia-Ciência&vida. Jan/2013.

GOMES, Luiz Carlos; GRETER, Francisco Paulo. O ócio e a filosofia. Filosofia-Ciência&vida. Jan/2013.

[3] MASI, Domenico de. O ócio criativo. Rio de Janeiro: sextante, 2000.

[4] BERNARDES, Cyro; MARCONDES, Reynaldo C. Sociologia aplicada a administração. 5. Ed. Sao Paulo: Saraiva, 2001.

[5] NIETSZCHE, F. Humano, demasiado humano. São Paulo: Companhia das letras, 2000.


Escrito por Vandilo às 12h06
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18/01/2013

Estigma e preconceito

 

 

Há certo tempo que venho percebendo a construção de um estigma sobre a população maranhense residente em Palmas, capital do Tocantins. A princípio parecia ser apenas casos isolados, mas com o passar dos anos morando aqui, vejo que a situação não é tão simples, nem tão espontânea como parecia. Assim como em São Paulo se atribui o estigma de “baiano” as pessoas nordestinas de um modo geral, e no Rio de Janeiro, o mesmo acontece, embora com a denominação diferenciada, ou seja, “paraíba”. Percebo assim que essa maneira de estigmatizar vem sendo reproduzido aqui com relação aos “maranhenses”, não exatamente por se tratar de pessoas oriundas da região Nordeste, mas a qualquer pessoa considerada inferior.

Palmas é uma capital nova e habitada por pessoas de todos os estados da federação; a convivência nela é propícia aos estudos na área de identidade, estigma, diversidade e consequentemente construção de preconceitos.  Tendo em vista essas razões, decidi fazer um projeto de pesquisa sobre o assunto. Minha intenção é investigar de maneira mais detalhada como essa situação é percebida pelos próprios migrantes do Estado do Maranhão, assim como pelos habitantes de Palmas vindos de outras regiões do país. Até que ponto o preconceito é reproduzido, assimilado e até mesmo assumido pelos maranhenses. O que nos chama atenção é a recorrência de tal situação nos mais diversos lugares ou aglomerações de pessoas, tais como: salas de aula, salas de espera de consultórios, lojas, paradas de ônibus, supermercados, etc.

Como metodologia, utilizarei a técnica da análise qualitativa, através da coleta de dados por entrevistas e questionários abertos, aplicados a uma quantidade de pessoas moradoras da capital, ainda não definida,  com o intuito de atingir um público alvo significativo para o objetivo da pesquisa. A opção por uma análise qualitativa se deu pela possibilidade de se interpretar os discursos de maneira mais abrangente, não se restringindo apenas a quantidade de respostas sugeridas por um simples questionário.


Escrito por Vandilo às 15h05
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25/12/2012

2012 - Um Dezembro Atípico

 

Era dia 23 de novembro, uma sexta-feira, a noite seria minha primeira aula num curso de final de semana na pós-graduação pelo segundo ano consecutivo. Passei a semana preparando o material didático para as aulas, na verdade, na quinta-feira já havia terminado todo esse trabalho de seleção de textos, leituras e slides. Na sexta-feira estava livre para fazer uma breve faxina no apartamento, já que até o momento não tinha encontrado quem fizesse esse trabalho por mim. De relance hesitei em deixar para outro dia, já que poderia ficar cansado ou com dor nas costas, mas foi apenas um pensamento passageiro que logo esqueci, estava mesmo era ansioso para iniciar as aulas à noite com tudo pronto inclusive o apartamento limpo, com menos uma preocupação. E assim comecei a faxina logo cedo pelo banheiro, terminado esse cômodo, parti ao restante do pequeno apartamento: quartos, sala e cozinha. Por fim, percebi que a água escorria devagar na pia do banheiro e decidi usar o desentupidor que poderia rapidamente resolver o problema, mas na primeira pressão, a cúpula da pia veio abaixo sobre o meu pé direito causando uma dor horrível, logo percebi o sangue que jorrava do dedão e gritei num pedido de socorro ao meu amigo que dormia no quarto ao lado, por acaso eu não estava sozinho, tive essa sorte, tive a quem pedir socorro para compartilhar esse momento de dor. 

Meu primeiro pensamento foi de que não poderia calçar os sapatos à noite para ir a aula do curso que preparei, não imaginei do estava por vir. Eu e meu amigo achamos que não havia fratura, era apenas um corte, e acreditei, quis acreditar, afinal ele é enfermeiro e tinha experiência nesse tipo de situação, mesmo assim achei por bem ir ao médico e lá, a médica que me atendeu, após examinar o raio X, confirmou a sua suspeita: quebrou! Após encaminhar ao ortopedista ele examinou e determinou usar uma tala por dez dias, além de anti-inflamatórios, antibióticos e uso de muletas, nada de por os pés no chão, disse ele. 

E agora? E as aulas à noite? O que fazer? Não tem jeito, seria muito ruim não comparecer! Muitos alunos vieram de outras cidades e até de outro Estado só para assistir a esta aula. Vou assim mesmo, pensei e fui psicologicamente abalado com outro sentimento diferente do planejado. Na minha rápida reflexão, logo pensei, que ser professor também é saber “se virar” diante dos imprevistos. As aulas são momentos da vida nos quais tudo pode acontecer, é um acontecimento que envolve situações imprevisíveis que vão além do que prevê as formalidades do nosso plano de aulas. Pensei como professor e profissionalmente me convenci mais uma vez de que deveria comparecer e dar o melhor de mim naquele momento. Tudo transcorreu bem, sem nenhum problema relacionado àquela situação, porém diferente do habitual devido a restrições na liberdade de movimentos ao ministrar aulas expositivas.

Passados os dez dias determinados pelo médico, voltei ao consultório. E tive a maior surpresa até então, ou seja, trocar a tala por gesso, e ter que ficar com o pé imobilizado até o mês de janeiro. Nada de dirigir, nada de pisar no chão nem fazer esforços, até retirar o gesso, disse ele mais uma vez. Agora a questão era outra: Como viajar? Como seria meu Natal? Tudo já estava planejado: Ir à Salvador para participar da defesa de tese do meu amigo João e, depois, seguir viagem até Campina Grande, minha cidade, na qual passaria as festas de natal e ano novo com a minha família como é de praxe.

Paralelo a tudo isso apresentei o atestado de licença médica na universidade, tendo em vista que estávamos no período de inicio do segundo semestre do ano letivo, que por conta de uma longa greve o empurrou para o mês de dezembro, algo totalmente inesperado para este ano e que reforçou minha reflexão acerca de que precisamos levar em consideração os imprevistos que podem mudar o curso de muitas histórias. Tudo bem! Vou concluir leituras atrasadas; rever projetos; avaliar planos de cursos e repor as aulas em janeiro. Promessas feitas e realmente cumpridas. Mas o período do recesso natalino, a tese do meu amigo e a visita aos familiares ficou martelando. Como pode?! Seria um dezembro perfeito, interessante, afinal já estava tudo planejado. Ao mesmo tempo refleti que não temos o controle sobre tudo e me resignei.


Escrito por Vandilo às 19h41
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14/03/2012

Em tudo pode haver poesia

 

 

Aproveito o dia de hoje, 14 de março, dia da poesia, para pensar sobre o seu significado em nossas vidas.

A vida é mesmo chata, é dor e sofrimento quase o tempo todo, e por isso mesmo precisamos de poesia. Podemos dizer, até mesmo, que a poesia é uma maneira de suavizar a vida.

Em tudo pode haver poesia, assim como pode haver humor. A poesia não é uma junção de palavras sem sentido, é um olhar especial sobre um momento ou um objeto qualquer. Podemos arrancar desse objeto uma poesia, como quem faz uma fotografia além da coisa em si. Portanto, a poesia não precisa estar escrita, ela é acima de tudo uma postura sobre a vida.

Vamos olhar mais o mundo e as pessoas com poesia, não precisa de muito romantismo ou pieguice. Talvez seja apenas um olhar mais sensível sobre o fluxo do que entendemos como vida.

Para ilustrar melhor o digo, segue um poema do meu livro Corpo Estranho...

 

Despoetizada

 

Acender a noite despoetizada

Com a beleza da palavra

Uma vez que existe a luz.

 

Acender a noite

em dois sentidos

e só chorar se for preciso.

 

Arrancar dela uma magia

um acorde que soa alto

uma árvore no asfalto

se não, uma certeza.

 

Eis que sai de nós o juízo

e a noite sorrir

por ter nos possuído.


Escrito por Vandilo às 22h04
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07/10/2011

Volta às aulas outra vez

 

 Ontem voltei às aulas na UFT, turma de Sociologia, com mais prazer e leveza.  Depois de ter encerrado um longo processo com a defesa de minha tese de doutorado, agora me sinto mais disponível e a vontade para encarar outros projetos. A sensação do dever cumprido, e de ter a certeza de uma etapa vencida, faz tudo parecer muito gratificante já que o resultado foi um saldo positivo.

Precisamos vivenciar cada etapa de nossa vida ao máximo, participando de tudo que o momento pode proporcionar. Penso nisso quando vejo alunos na universidade estudando a noite depois de sair do trabalho sem jantar para chegar em casa e, muitas vezes, adormecer em cima dos livros. Continuo a achar que não devemos trabalhar durante o período de formação universitária para que esse momento seja bem aproveitado e faça jus ao tripé ensino, pesquisa e extensão, que a universidade se propõe. Assim como o professor, o aluno também deve participar de encontros, congressos, viagens; frequentar cinemas, teatro e ler outros livros além dos textos passados em sala de aula. Uma formação digna requer um tempo para ruminar, como gostava de dizer Brizola em relação ao fazer política, ou então, algo assim como o “ócio criativo” proposto pelo sociólogo Domenico de Masi. Sei que infelizmente nem todos os brasileiros têm a oportunidade de viver em momento assim como manda o figurino, seria o ideal. Que bom seria se pudéssemos contar com essa tranqüilidade na educação; que as pessoas dispostas a estudar pudessem contar com uma educação de qualidade, que fôssemos tratados como prioridade pelo Estado, para que não aconteça o mesmo como o que foi mostrado pela televisão há poucos dias no Ceará, onde professores foram espancados como animais.

Precisamos continuar acreditando que essa realidade ainda pode mudar e que vai mudar. Apesar da nossa baixa auto-estima como brasileiro que ainda pensa como escravo, que vê no trabalho manual algo inferior e ai vai para a universidade fazer qualquer coisa, de qualquer jeito. Prefiro acreditar que essa mentalidade em passos lentos tende a mudar, afinal tudo depende de amadurecimento. Bem que a educação poderia colaborar acelerando esse processo com uma visão mais crítica por parte de todos que estão envolvidos com ela.

A propósito, acabei de ler o livro “A cabeça do brasileiro”, de Alberto Carlos Almeida, que nos oferece um panorama dessa realidade que cito acima. O livro traz uma radiografia nada favorável, mas apesar de tudo, ou seja, da corrupção na saúde e educação, que é o nosso maior problema, acredito que sempre vai existir uma possibilidade de mudança nos valores e perspectivas do exercício pleno da cidadania. Precisamos ter firmeza e paciência, e acima de tudo trabalhar para que uma transformação seja possível. A paciência é necessária, tendo em vista que, em se tratando de valores humanos, toda mudança é lenta e gradual e os resultados vão aparecendo ao longo de um processo de negociação política.    


Escrito por Vandilo às 15h03
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05/07/2011

CANELA: A festa ao Divino como marcador de uma identidade.

 

No próximo final de semana, dias 8, 9 e 10, na quadra 508 Norte, antiga Arne 64, em Palmas, acontece mais uma edição dos festejos ao Divino Espírito Santo. Assim como é tradição em várias cidades do interior do Brasil e do estado do Tocantins, destacando-se Natividade e Monte do Carmo, ali bem perto de nós, existe também, uma festa popular e tradicional.

A festa realizada pelos moradores do antigo Canela nos é interessante, tendo em vista a sua importância para entendermos a luta pela manutenção de uma identidade ameaçada pelos impactos da construção do lago artificial formado pela Usina de Lajeado. A comunidade do Canela que ocupava as margens do rio Tocantins vivia sossegada no seu espaço de origem até sofrer a primeira interferência externa com a construção de Palmas, depois veio a construção da usina e a inundação de suas terras que impôs a sua transferência para outro lugar, ou seja, uma quadra do plano urbanístico de Palmas. O contato com os moradores da capital e os novos símbolos trazidos por esses contatos tem levado os moradores do antigo Canela a usarem de todos os meios para lutar pelo seu direito de existir, ora como morador de Palmas, ora como pertencente ao Canela, uma verdadeira manipulação da identidade, trazendo a tona a questão política que está inserida no conceito identidade. Sempre que pensamos em uma construção identitária, devemos levar em consideração uma relação, um contraste e um jogo de negociação de sentidos, delineando os contornos do que venha a se constituir em uma bandeira de luta para aquelas pessoas que reivindicam direitos que possam melhorar a sua qualidade de vida. Aliás, a luta por melhorias na quadra vem sendo travada incessantemente nesses últimos dez anos em que a comunidade foi reassentada, tendo de um lado a prefeitura de Palmas e do outro a Investco, um verdadeiro jogo no qual só a comunidade sai perdendo. A última dessas batalhas está sendo por asfalto, ainda sem uma solução definitiva que passo amenizar a poeira insuportável que penetra as casas.  

A festa ao Divino representa para as pessoas do Canela o resgate de uma tradição, servindo como marcador de sua identidade a medida que através do resgate da memória de suas tradições, as pessoas passam a se reconhecerem e serem reconhecidas como pertencentes a uma determinada história e trajetória. É preciso que se diga que essa luta em manter viva a identidade Canela, é de algumas poucas pessoas da comunidade, mas que acaba contagiando a maioria dos moradores, por se tratar de momento de comunhão entre eles; um ritual que possibilita o encontro de antigos moradores que se encontram espalhados no em torno de Palmas, já que nem todos se concentraram na mesma quadra destinada ao povo do Canela.

Diante da modernidade que bate a porta dos moradores e insiste em alterar os seus hábitos e costumes, o contato com a diferença tem sido um aprendizado para as pessoas da comunidade frente às demandas que Palmas tem oferecido. Dizer que houve perdas é o óbvio, mas há quem diga que também houve ganhos, afinal nenhuma cultura sobrevive estática. Acredito que a cada ano as pessoas da comunidade, tem aprendido a conviver com essa situação a ponto de tirar proveito dela, mas é importante que o Canela não seja lembrado apenas como um povoado exótico que não existe  mais. Que não seja apenas um ponto de pauta que preenche as lacunas dos telejornais por falta de assunto mais interessante, aliás, esta queixa tem sido freqüente entre os moradores que reclamam por mais atenção por parte dos órgãos públicos. Torço para que população de Palmas, com toda a diversidade cultural que existe no seu interior, também aprenda com a história do Canela, enquanto uma comunidade que tenta se manter viva e pode dar uma contribuição significativa para o mosaico multicultural de nossa capital.

 


Escrito por Vandilo às 16h33
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11/05/2011

ARTIFICIALISMO

 

 

O Tocantins por ser o mais novo Estado da federação e por ter uma capital planejada nos moldes de Brasília, conta com uma formação bastante recente, tendo o artificialismo como uma marca em quase todos os setores de sua composição. Seja na invenção do “amor ao lugar” através de músicas em propagandas oficiais, pontos turísticos, praias artificiais, cachoeiras e artesanato, seja nos traçados das quadras e avenidas da capital Palmas ou na inauguração da Usina Hidrelétrica que inundou parte do território e construiu um grande lago com praias permanentes às suas margens sem contar com grande parte da população vinda de fora do estado concentrada na sua maioria na capital que trouxe novos valores, diferentes dos valores considerados tradicionais na região. O choque de valores sociais e culturais existente nesta região, que compreendia o norte de Goiás, e a sua entrada na modernidade através de diferentes costumes e hábitos, marca as transformações inseridas na dinâmica da população canelense e tocantinense. 

 

 

 

- Uma construção de sentidos

 

 

Pensar um lugar, região ou Estado como uma construção é pensar o papel da História como um discurso que diz respeito a uma realidade suposta e artificial porque é antinatural. Bitarello (2004, p. 170), em resenha na qual faz uma reflexão sobre o artificialismo mostra que o processo de artificialização está relacionado ao ser humano, assim como as configurações do desejo (este tomado como estritamente pulsional), os agenciamentos que o homem estabelece em quaisquer campos de sua vida (desde ligações mais básicas, fisiológicas, até as mais complexas elucubrações de que é capaz a mente humana) passam, impreterivelmente, pela prática e adoção do artificialismo. Leia-se: artifício, articulação, arte.

Rosset (1989, p. 15), trava uma discussão filosófica sobre os conceitos de natureza, matéria e artifício. Ele afirma que natureza é o que existe independente da atividade humana; porém não se confunde com a “matéria”. A matéria é o acaso; modo de existência não somente independente das produções humanas, mas indiferente a todo principio e a toda lei. É neste sentido que podem-se, segundo ele, distinguir três grandes domínios da existência (artificial, natureza e acaso).  Nesses três reinos, o efeito material diz respeito à coisa inerte, o acaso; o efeito humano é o que se pode chamar de artificial, por depender do desejo e da vontade do homem, ou seja, é ação humana sobre as coisas; e o efeito da natural que é o movimento da matéria, o exemplo dado pelo autor, nesse último caso, é o crescimento da grama ou a queda de uma pedra.

Nosso intuito é enfatizar o efeito da ação humana sobre a natureza e a matéria, mostrando que a historia é feita pelo homem a partir de uma construção social levando em consideração as suas aspirações em um determinado contexto social, histórico e político. Como diz Buzzi (2002, p. 146), a história é parecida ao sonho. Acrescentando que:

 

 O sonho é a invenção inconsciente de imagens sensíveis, que, como o véu da noite, mais encobre que descobre os enigmas da existência humana.  Ao contrário do sonho, a história é uma invenção consciente, a construção de um discurso racional, que busca desvendar a verdade da condição humana. A história é, pois, no seu diferenciar-se em épocas, um esforço de desocultação da verdade da existência humana, iniciada nas brumas do passado, continuada na clareira do presente e aguardada no esplendor do futuro.

 

Vemos que o homem sempre foi artificial e por isso mesmo não pretendemos fazer aqui um julgamento de valor sobre as atitudes e projeto humanos no que estes se aproximam ou se afastam do que pode ser considerado natural. Ser artificial faz parte da condição humana. Neste sentido, teríamos que questionar até mesmo o que é a natureza. Como sabemos: “o índio não se vê sem meio ambiente. O homem cria meios para sobreviver sem o meio ambiente. (Meggers apud Leonel, p.219)

Ao tratarmos da construção e reconstrução de identidades e conseqüentemente território – desterritorialização e reterritorialização vamos encontrar no conceito de artificialismo um ponto de vista que complementa essa questão ao referir-se a formações possíveis que são construídas a partir relações de poder na sociedade. Segundo Silveira Jr (2006, p. 15),

 

“tudo que há são formações como constituições de poder e sempre com possibilidade  de serem  recalcantes ou recalcadas. Qualquer formação (sic) tem seu poder próprio só por existir. Ela pode estar em situação de inferioridade diante de poderes mais bem instalados, mas, quando consegue juntar diversas formações, agrupar seus poderes, é possível produzir uma formação com poder superior e derrubar a outra. Esta tem sido a história da humanidade e de suas lutas pelos interesses de cada um, mediante os poderes que pode aglutinar a seu favor”.

 

Assim, ao escrever sobre comunicação e psicanálise nos dá uma noção de como nossa sociedade encontra no desejo, a motivação necessária para realizar seus projetos, o que o autor chama de transformática, o Haver e o não-Haver em jogos das formações e de poder.

BIBLIOGRAFIA

BAUMAN, Z. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

HALL, Stuart. Da Diáspora – Identidades e Mediações Culturais. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2006.

BITARELLO, Maria Domingues. Reflexões sobre o Artificialismo. Lumina, Juiz de Fora – Facom/UFJF – v. 7, n. ½, p. 169-178, jan/dez. 2004.

BUZZI. Arcângelo R. A identidade humanamodos de realização. Petrópolis: Vozes, 2002.

LEONEL, Mauro. A morte social dos rios. São Paulo: Perspectiva: Instituto de Antropologia e Meio Ambiente: FAPESP, 1998.

ROSSET, Clément. A Antinatureza: Elementos para uma Filosofia Trágica. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1989.

SILVEIRA Jr. Potiguara Mendes da. ARTIFICIALISMO TOTAL: Ensaios de Transformática Comunicação e Psicanálise. Rio de Janeiro: NovaMente, 2006.


Escrito por Vandilo às 16h41
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14/12/2010

A educação como valor

O ano está terminando e é muito oportuno que a gente não se esqueça da educação no Brasil. Pelos últimos dados as coisas não estão nada bem. Muito se fala em educação, chega a ser cansativo, um jargão, mas nesse caso, nunca será demais pela certeza de que este é o principal caminho para mudarmos a vida das pessoas e do país.

Ter a educação como um valor é uma situação imprescindível para a solução dos problemas que a escola enfrenta. É muito triste perceber a situação em que se encontram os professores e alunos nas escolas públicas. Desentendimentos entre professores e alunos sempre existiram, mas nos últimos anos a violência está sem limites dentro e fora da sala de aula, um reflexo da sociedade em que vivemos. As crianças que não recebem dos pais a informação de que estudar é muito importante para a vida, vai para a escola brincar, bagunçar, desestimulando os professores, fato que gera uma bola de neve, na qual todos se acusam.

No meu ponto de vista, o problema da escola está na qualidade da educação que recebemos em casa desde criança e, neste sentido, a sociedade precisa de transformações para mudar os paradigmas e consequentemente as relações na escola. A criança que não tem limites em casa e não respeita ninguém, não vai ter disciplina na escola, não vai respeitar o professor, não vai ter paciência para aceitar os seus deveres como estudante. A escola tem que ser atraente mas não pode se transformar em circo para agradar aos alunos. Essas crianças e adolescentes precisam saber distinguir o tempo de brincar, de assistir televisão, de ficar no computador e namorar do tempo de estudar. Parece algo óbvio e tradicional, e é, mas não tem outro caminho. Culpar apenas a escola e os professores mal pagos, cansados e desestimulados não resolve o problema.

Essa questão só será resolvida lentamente por ser um processo histórico que depende de uma conscientização da sociedade e das pessoas que precisam pensar melhor na hora de serem pais. A responsabilidade é cada vez maior. Não existe mais espaço para a espontaneidade nesta sociedade cheia de regras. Ou seja, não dá para sair por ai fazendo filhos para a escola educar. Quem não prestar atençao a isso sofrerá muito e não chegará a lugar nenhum, a não ser criar dependência de outras pessoas e do estado com os seus programas sociais paternalistas. Serão sempre pessoas que não visam o bem estar da sociedade.    

Com educação teremos emprego, saúde e qualidade de vida. Que em 2011, todos pensem melhor sobre essas questões. Feliz Ano Novo!


Escrito por Vandilo às 10h01
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09/10/2010

Andei

 

Andei por onde pensava

querer andar

abri os passos

e andei

dias e noites aos montes

 

e o maior efeito

foi o calor encontrado

em cada clima

onde eu andava

me interrogava

e voltava.


Escrito por Vandilo às 15h53
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