Blog do VANDILO


Volta às aulas outra vez

 

 Ontem voltei às aulas na UFT, turma de Sociologia, com mais prazer e leveza.  Depois de ter encerrado um longo processo com a defesa de minha tese de doutorado, agora me sinto mais disponível e a vontade para encarar outros projetos. A sensação do dever cumprido, e de ter a certeza de uma etapa vencida, faz tudo parecer muito gratificante já que o resultado foi um saldo positivo.

Precisamos vivenciar cada etapa de nossa vida ao máximo, participando de tudo que o momento pode proporcionar. Penso nisso quando vejo alunos na universidade estudando a noite depois de sair do trabalho sem jantar para chegar em casa e, muitas vezes, adormecer em cima dos livros. Continuo a achar que não devemos trabalhar durante o período de formação universitária para que esse momento seja bem aproveitado e faça jus ao tripé ensino, pesquisa e extensão, que a universidade se propõe. Assim como o professor, o aluno também deve participar de encontros, congressos, viagens; frequentar cinemas, teatro e ler outros livros além dos textos passados em sala de aula. Uma formação digna requer um tempo para ruminar, como gostava de dizer Brizola em relação ao fazer política, ou então, algo assim como o “ócio criativo” proposto pelo sociólogo Domenico de Masi. Sei que infelizmente nem todos os brasileiros têm a oportunidade de viver em momento assim como manda o figurino, seria o ideal. Que bom seria se pudéssemos contar com essa tranqüilidade na educação; que as pessoas dispostas a estudar pudessem contar com uma educação de qualidade, que fôssemos tratados como prioridade pelo Estado, para que não aconteça o mesmo como o que foi mostrado pela televisão há poucos dias no Ceará, onde professores foram espancados como animais.

Precisamos continuar acreditando que essa realidade ainda pode mudar e que vai mudar. Apesar da nossa baixa auto-estima como brasileiro que ainda pensa como escravo, que vê no trabalho manual algo inferior e ai vai para a universidade fazer qualquer coisa, de qualquer jeito. Prefiro acreditar que essa mentalidade em passos lentos tende a mudar, afinal tudo depende de amadurecimento. Bem que a educação poderia colaborar acelerando esse processo com uma visão mais crítica por parte de todos que estão envolvidos com ela.

A propósito, acabei de ler o livro “A cabeça do brasileiro”, de Alberto Carlos Almeida, que nos oferece um panorama dessa realidade que cito acima. O livro traz uma radiografia nada favorável, mas apesar de tudo, ou seja, da corrupção na saúde e educação, que é o nosso maior problema, acredito que sempre vai existir uma possibilidade de mudança nos valores e perspectivas do exercício pleno da cidadania. Precisamos ter firmeza e paciência, e acima de tudo trabalhar para que uma transformação seja possível. A paciência é necessária, tendo em vista que, em se tratando de valores humanos, toda mudança é lenta e gradual e os resultados vão aparecendo ao longo de um processo de negociação política.    



Escrito por Vandilo às 15h03
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




CANELA: A festa ao Divino como marcador de uma identidade.

 

No próximo final de semana, dias 8, 9 e 10, na quadra 508 Norte, antiga Arne 64, em Palmas, acontece mais uma edição dos festejos ao Divino Espírito Santo. Assim como é tradição em várias cidades do interior do Brasil e do estado do Tocantins, destacando-se Natividade e Monte do Carmo, ali bem perto de nós, existe também, uma festa popular e tradicional.

A festa realizada pelos moradores do antigo Canela nos é interessante, tendo em vista a sua importância para entendermos a luta pela manutenção de uma identidade ameaçada pelos impactos da construção do lago artificial formado pela Usina de Lajeado. A comunidade do Canela que ocupava as margens do rio Tocantins vivia sossegada no seu espaço de origem até sofrer a primeira interferência externa com a construção de Palmas, depois veio a construção da usina e a inundação de suas terras que impôs a sua transferência para outro lugar, ou seja, uma quadra do plano urbanístico de Palmas. O contato com os moradores da capital e os novos símbolos trazidos por esses contatos tem levado os moradores do antigo Canela a usarem de todos os meios para lutar pelo seu direito de existir, ora como morador de Palmas, ora como pertencente ao Canela, uma verdadeira manipulação da identidade, trazendo a tona a questão política que está inserida no conceito identidade. Sempre que pensamos em uma construção identitária, devemos levar em consideração uma relação, um contraste e um jogo de negociação de sentidos, delineando os contornos do que venha a se constituir em uma bandeira de luta para aquelas pessoas que reivindicam direitos que possam melhorar a sua qualidade de vida. Aliás, a luta por melhorias na quadra vem sendo travada incessantemente nesses últimos dez anos em que a comunidade foi reassentada, tendo de um lado a prefeitura de Palmas e do outro a Investco, um verdadeiro jogo no qual só a comunidade sai perdendo. A última dessas batalhas está sendo por asfalto, ainda sem uma solução definitiva que passo amenizar a poeira insuportável que penetra as casas.  

A festa ao Divino representa para as pessoas do Canela o resgate de uma tradição, servindo como marcador de sua identidade a medida que através do resgate da memória de suas tradições, as pessoas passam a se reconhecerem e serem reconhecidas como pertencentes a uma determinada história e trajetória. É preciso que se diga que essa luta em manter viva a identidade Canela, é de algumas poucas pessoas da comunidade, mas que acaba contagiando a maioria dos moradores, por se tratar de momento de comunhão entre eles; um ritual que possibilita o encontro de antigos moradores que se encontram espalhados no em torno de Palmas, já que nem todos se concentraram na mesma quadra destinada ao povo do Canela.

Diante da modernidade que bate a porta dos moradores e insiste em alterar os seus hábitos e costumes, o contato com a diferença tem sido um aprendizado para as pessoas da comunidade frente às demandas que Palmas tem oferecido. Dizer que houve perdas é o óbvio, mas há quem diga que também houve ganhos, afinal nenhuma cultura sobrevive estática. Acredito que a cada ano as pessoas da comunidade, tem aprendido a conviver com essa situação a ponto de tirar proveito dela, mas é importante que o Canela não seja lembrado apenas como um povoado exótico que não existe  mais. Que não seja apenas um ponto de pauta que preenche as lacunas dos telejornais por falta de assunto mais interessante, aliás, esta queixa tem sido freqüente entre os moradores que reclamam por mais atenção por parte dos órgãos públicos. Torço para que população de Palmas, com toda a diversidade cultural que existe no seu interior, também aprenda com a história do Canela, enquanto uma comunidade que tenta se manter viva e pode dar uma contribuição significativa para o mosaico multicultural de nossa capital.

 



Escrito por Vandilo às 16h33
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




ARTIFICIALISMO

 

 

O Tocantins por ser o mais novo Estado da federação e por ter uma capital planejada nos moldes de Brasília, conta com uma formação bastante recente, tendo o artificialismo como uma marca em quase todos os setores de sua composição. Seja na invenção do “amor ao lugar” através de músicas em propagandas oficiais, pontos turísticos, praias artificiais, cachoeiras e artesanato, seja nos traçados das quadras e avenidas da capital Palmas ou na inauguração da Usina Hidrelétrica que inundou parte do território e construiu um grande lago com praias permanentes às suas margens sem contar com grande parte da população vinda de fora do estado concentrada na sua maioria na capital que trouxe novos valores, diferentes dos valores considerados tradicionais na região. O choque de valores sociais e culturais existente nesta região, que compreendia o norte de Goiás, e a sua entrada na modernidade através de diferentes costumes e hábitos, marca as transformações inseridas na dinâmica da população canelense e tocantinense. 

 

 

 

- Uma construção de sentidos

 

 

Pensar um lugar, região ou Estado como uma construção é pensar o papel da História como um discurso que diz respeito a uma realidade suposta e artificial porque é antinatural. Bitarello (2004, p. 170), em resenha na qual faz uma reflexão sobre o artificialismo mostra que o processo de artificialização está relacionado ao ser humano, assim como as configurações do desejo (este tomado como estritamente pulsional), os agenciamentos que o homem estabelece em quaisquer campos de sua vida (desde ligações mais básicas, fisiológicas, até as mais complexas elucubrações de que é capaz a mente humana) passam, impreterivelmente, pela prática e adoção do artificialismo. Leia-se: artifício, articulação, arte.

Rosset (1989, p. 15), trava uma discussão filosófica sobre os conceitos de natureza, matéria e artifício. Ele afirma que natureza é o que existe independente da atividade humana; porém não se confunde com a “matéria”. A matéria é o acaso; modo de existência não somente independente das produções humanas, mas indiferente a todo principio e a toda lei. É neste sentido que podem-se, segundo ele, distinguir três grandes domínios da existência (artificial, natureza e acaso).  Nesses três reinos, o efeito material diz respeito à coisa inerte, o acaso; o efeito humano é o que se pode chamar de artificial, por depender do desejo e da vontade do homem, ou seja, é ação humana sobre as coisas; e o efeito da natural que é o movimento da matéria, o exemplo dado pelo autor, nesse último caso, é o crescimento da grama ou a queda de uma pedra.

Nosso intuito é enfatizar o efeito da ação humana sobre a natureza e a matéria, mostrando que a historia é feita pelo homem a partir de uma construção social levando em consideração as suas aspirações em um determinado contexto social, histórico e político. Como diz Buzzi (2002, p. 146), a história é parecida ao sonho. Acrescentando que:

 

 O sonho é a invenção inconsciente de imagens sensíveis, que, como o véu da noite, mais encobre que descobre os enigmas da existência humana.  Ao contrário do sonho, a história é uma invenção consciente, a construção de um discurso racional, que busca desvendar a verdade da condição humana. A história é, pois, no seu diferenciar-se em épocas, um esforço de desocultação da verdade da existência humana, iniciada nas brumas do passado, continuada na clareira do presente e aguardada no esplendor do futuro.

 

Vemos que o homem sempre foi artificial e por isso mesmo não pretendemos fazer aqui um julgamento de valor sobre as atitudes e projeto humanos no que estes se aproximam ou se afastam do que pode ser considerado natural. Ser artificial faz parte da condição humana. Neste sentido, teríamos que questionar até mesmo o que é a natureza. Como sabemos: “o índio não se vê sem meio ambiente. O homem cria meios para sobreviver sem o meio ambiente. (Meggers apud Leonel, p.219)

Ao tratarmos da construção e reconstrução de identidades e conseqüentemente território – desterritorialização e reterritorialização vamos encontrar no conceito de artificialismo um ponto de vista que complementa essa questão ao referir-se a formações possíveis que são construídas a partir relações de poder na sociedade. Segundo Silveira Jr (2006, p. 15),

 

“tudo que há são formações como constituições de poder e sempre com possibilidade  de serem  recalcantes ou recalcadas. Qualquer formação (sic) tem seu poder próprio só por existir. Ela pode estar em situação de inferioridade diante de poderes mais bem instalados, mas, quando consegue juntar diversas formações, agrupar seus poderes, é possível produzir uma formação com poder superior e derrubar a outra. Esta tem sido a história da humanidade e de suas lutas pelos interesses de cada um, mediante os poderes que pode aglutinar a seu favor”.

 

Assim, ao escrever sobre comunicação e psicanálise nos dá uma noção de como nossa sociedade encontra no desejo, a motivação necessária para realizar seus projetos, o que o autor chama de transformática, o Haver e o não-Haver em jogos das formações e de poder.

BIBLIOGRAFIA

BAUMAN, Z. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

HALL, Stuart. Da Diáspora – Identidades e Mediações Culturais. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2006.

BITARELLO, Maria Domingues. Reflexões sobre o Artificialismo. Lumina, Juiz de Fora – Facom/UFJF – v. 7, n. ½, p. 169-178, jan/dez. 2004.

BUZZI. Arcângelo R. A identidade humanamodos de realização. Petrópolis: Vozes, 2002.

LEONEL, Mauro. A morte social dos rios. São Paulo: Perspectiva: Instituto de Antropologia e Meio Ambiente: FAPESP, 1998.

ROSSET, Clément. A Antinatureza: Elementos para uma Filosofia Trágica. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1989.

SILVEIRA Jr. Potiguara Mendes da. ARTIFICIALISMO TOTAL: Ensaios de Transformática Comunicação e Psicanálise. Rio de Janeiro: NovaMente, 2006.



Escrito por Vandilo às 16h41
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




A educação como valor

O ano está terminando e é muito oportuno que a gente não se esqueça da educação no Brasil. Pelos últimos dados as coisas não estão nada bem. Muito se fala em educação, chega a ser cansativo, um jargão, mas nesse caso, nunca será demais pela certeza de que este é o principal caminho para mudarmos a vida das pessoas e do país.

Ter a educação como um valor é uma situação imprescindível para a solução dos problemas que a escola enfrenta. É muito triste perceber a situação em que se encontram os professores e alunos nas escolas públicas. Desentendimentos entre professores e alunos sempre existiram, mas nos últimos anos a violência está sem limites dentro e fora da sala de aula, um reflexo da sociedade em que vivemos. As crianças que não recebem dos pais a informação de que estudar é muito importante para a vida, vai para a escola brincar, bagunçar, desestimulando os professores, fato que gera uma bola de neve, na qual todos se acusam.

No meu ponto de vista, o problema da escola está na qualidade da educação que recebemos em casa desde criança e, neste sentido, a sociedade precisa de transformações para mudar os paradigmas e consequentemente as relações na escola. A criança que não tem limites em casa e não respeita ninguém, não vai ter disciplina na escola, não vai respeitar o professor, não vai ter paciência para aceitar os seus deveres como estudante. A escola tem que ser atraente mas não pode se transformar em circo para agradar aos alunos. Essas crianças e adolescentes precisam saber distinguir o tempo de brincar, de assistir televisão, de ficar no computador e namorar do tempo de estudar. Parece algo óbvio e tradicional, e é, mas não tem outro caminho. Culpar apenas a escola e os professores mal pagos, cansados e desestimulados não resolve o problema.

Essa questão só será resolvida lentamente por ser um processo histórico que depende de uma conscientização da sociedade e das pessoas que precisam pensar melhor na hora de serem pais. A responsabilidade é cada vez maior. Não existe mais espaço para a espontaneidade nesta sociedade cheia de regras. Ou seja, não dá para sair por ai fazendo filhos para a escola educar. Quem não prestar atençao a isso sofrerá muito e não chegará a lugar nenhum, a não ser criar dependência de outras pessoas e do estado com os seus programas sociais paternalistas. Serão sempre pessoas que não visam o bem estar da sociedade.    

Com educação teremos emprego, saúde e qualidade de vida. Que em 2011, todos pensem melhor sobre essas questões. Feliz Ano Novo!



Escrito por Vandilo às 10h01
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Andei

 

Andei por onde pensava

querer andar

abri os passos

e andei

dias e noites aos montes

 

e o maior efeito

foi o calor encontrado

em cada clima

onde eu andava

me interrogava

e voltava.



Escrito por Vandilo às 15h53
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




QUALIDADE DE VIDA

Muitas são as visões sobre o real significado do que chamamos de qualidade de vida. A revista de Sociologia deste mês trouxe um artigo intitulado: A busca sem fim assinado por Robson Rodrigues, que trata do assunto mostrando que a nocão de qualidade de vida depende dos valores sociais que temos. Cada cultura tem seus valores e expectativas sobre o que é bom ou ruim, saudável ou doentil, depende dos valores sociais de uma época e de um lugar determinado.

Pensar em qualidade de vida, atualmente, nesta sociedade consumista, é ter muitos bens materiais: carros, casas, roupas e viagens. Mas será mesmo que precisamos de tudo isso? Uma boa companhia para papear é muito importante. A partir de uma boa conversa há quem possa descortinar uma imensidão de outras coisas que podem nos dar muito prazer. E vejam que não estou querendo dizer sexo, embora ele também seja importante e muito gostoso. Mas o prazer e a confiança em bons amigos, o compartilhar de visões sobre a vida, "o andar por ai sem pensar em nada", não custa nada, a não ser bons momentos. Este tipo de comportamento e valor está cada vez mais raro e mais necessário.

Tudo pode ser bem simples e natural, como dizia a música do Roupa Nova. Porque complicar tanto, para que criar barreiras e formalidades sem resultados? A felicidade continua se manisfestando nas coisas simples. É mais ou menos como a noção de ser chique, que é ser discreto e ter bom senso, enquanto o brega é a ostentação, o exagero. Uma questão de quantidade e não de qualidade.

A qualidade de vida pode ser uma utopia para uma sociedade que está eternamente insatisfeita porque busca a felicidade nos objetos através de compras. Enquanto houver essa perspectiva medíocre, a qualidade de vida será inatingível, não haverá satisfação, nem comunhão entre as pessoas. Apenas pessoas sem rostos nas filas e ruas procurando um novo produto que lhe traga algum prazer instantâneo.

Vale a pena ler o artigo da revista, nele o assunto é discutido de forma mais completa e explica como as pessoas acabam recorrendo cada vez mais aos remédios para suportarem viver umas com as outras, nesta sociedade de tantas vaidades e de tanta complexidade.

 

  

 



Escrito por Vandilo às 15h33
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




História oral

Este texto é parte de um trabalho que escrevi para a uma disciplina sobre história oral, quando estava pagando os créditos do doutorado. Ela foi muito importante para minha tese, tendo em vista ser a metodologia que escolhi para trabalhar na pesquisa. E é interessante por que levanta algumas reflexões sobre as possibilidades de abordagens com esse tipo de metodologia no estudo da História.

A história oral surge em 1950, com um jornalista americano sobre o governo dos Estados Unidos e da Inglaterra. A partir de 1960, o foco vai para os grupos excluídos. De acordo com Alberti (2006 p 157), opondo-se à História positivista do século XIX, a História oral tornou-se a contra-História, a História do local e do comunitário (em oposição à chamada História da nação). Por trás desse movimento, estava a crença de que era possível reconciliar o saber com o povo e se voltar para a História dos humildes, dos primitivos, dos “sem História” (em oposição à História da civilização e do progresso que, na verdade, acabava sendo a História das elites e dos vencedores).

Neste sentido, é importante considerar que existem equívocos sobre a chamada História oral “militante”, tendo em vista que esta prática pensava chegar a “verdade do povo” graças ao levantamento do testemunho oral. A entrevista em vez de fonte para o estudo do passado e do presente torna-se a revelação do real. Deixa-se de analisar o material colhido para considerá-lo como já sendo História.

A autora coloca como outro equivoco desse tipo de História, o uso da História “democrática” ou História “vista de baixo”. Nota-se que nem sempre o pesquisador que estuda os personagens da História “de cima” está sendo menos democrático. Passa-se assim a perceber que à medida que a ênfase sobre a História “de baixo” acaba vinculada à noção de “povos sem escrita”, a História oral torna-se uma “compensação” para a incapacidade daqueles grupos de escreverem sobre si mesmos. Assim, um argumento que, inicialmente, reclamava maior importância para os “de baixo”, corre o risco de acabar reforçando, ainda que de modo indireto, o preconceito em relação a eles. (ALBERTI, 20006 p. 158)

Dar voz às minorias não significa simplesmente deixá-las falar, o pesquisador deve reconhecer que a necessidade de ouvir os “de baixo” parte, antes de mais nada, dele mesmo, da instituição em que trabalha, do órgão que financia sua pesquisa; desde que esteja consciente disso e das implicações de sua decisão, é claro que nada impede que se lance à pesquisa, assim vemos que a História oral foi passando de militante a acadêmica.

No Brasil a História oral entrou nos anos 70, mas a maior expansão só aconteceu nos anos 90. Sua expressão mais significativa na década passada deve-se a quebra de velhos paradigmas no estudo das Ciências Humanas, o interesse dos pesquisadores pelas temáticas sobre memória, identidades e a valorização do papel do individuo.

Alberti (idem, p. 163), afirma que hoje é generalizada a concepção de que fontes escritas também podem ser subjetivas e de que a própria subjetividade pode se constituir em objeto do pensamento cientifico. Portanto, perde-se o receio de fazer ciência com uma perspectiva mais aberta levando em consideração os valores do pesquisador e dos pesquisados, tendo em vista que isso significa sair das amarras do positivismo sem perder a seriedade dos resultados.

Por outro lado, como afirma Ferreira e Amado (1996), “trabalhar com história oral no Brasil em geral ainda consiste em gravar entrevistas e editar os depoimentos, sem explorá-los suficientemente, tendo em vista um aprofundamento teórico-metodológico; também é comum a utilização de entrevistas, em associação a fontes escritas, como fornecedoras de informações para a elaboração de teses ou trabalhos de pesquisa, sem que isso envolva qualquer discussão acerca da natureza das fontes ou de seus problemas”.

As autoras apontam assim para as três principais posturas a respeito do status da história oral: uma técnica, uma disciplina ou uma metodologia. Como técnica seriam as experiências com gravações, transcrições e conversação de entrevistas. Alguns dos defensores dessa posição são pessoas envolvidas diretamente na constituição e conservação de acervos orais. Os que postulam para a história oral como disciplina baseiam-se em argumentos complexos, por vezes contraditórios entre si. Para esses a história oral inaugurou técnicas especificas de pesquisa, procedimentos metodológicos singulares e um conjunto próprio de conceitos.  A história oral como metodologia permite abordagens transdiciplinares e interdisciplinares. A história oral como todas as metodologias, apenas estabelece e ordena procedimentos de trabalho (...) funcionando como ponte entre teoria e prática.

Devemos ver, portanto, que a história oral serve a partir das demandas sociais como instrumento privilegiado para lidar com a memória, identidade e projetos, as comemorações e seus usos, a globalização e os temas daí suscitados, tais como: emigração, etnicidade, gênero e família, entre outros.  

BIBLIOGRAFIA

ALBERTI, Verena In: PINSKY, Carla Bassanezi. (org.). Fontes Históricas. 2. ed. São Paulo : Contexto, 2006. 

_______________. Manual de História Oral. 2ª ed. rev. e atual. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2004.

AMADO, Janaína, FERREIRA, Marieta de Moraes (orgs). Usos e abusos da História Oral. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1996.

 

 



Escrito por Vandilo às 09h53
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Volta às aulas

Todo início de semestre vem a preocupação de como tornar a aula mais atraente e participativa. Para isso, buscamos novos textos e metodologias que ajudem atingir os objetivos propostos no plano de ensino. Pelo que aprendi com a didática, uma disciplina deve ser ministrada utilizando-se várias metodologias de ensino para que facilite a aprendizagem, mesmo que seja em aulas na universidade. Portanto, fico preocupado quando ouço pessoas, alunos e até professores criticando as aulas que são realizadas através de seminários apresentados pelos alunos, que na verdade podemos entender como uma socialização do conhecimento e não exatamente, seminários. A questão é que não se deve lecionar usando apenas um tipo de metodologia durante todo o semestre, isso é que não é bom, devemos usar a aula expositiva, o seminário, a discussão em pequenos grupos, a leitura, o vídeo e tantos outros  recursos que estejam a nossa disposição. Acredito que tem aluno que aprende melhor ouvindo, enquanto outro consegue participar melhor apresentando um trabalho, portanto, a diversificação de atividades em sala de aula é importante para que a aula seja mais dinâmica e todos possam participar mais.

Há quem diga que na universidade basta ao professor um quadro de giz (ou pincel) e um livro, o que não deixa de ser verdade, quando os alunos fazem leitura prévia do texto e têm compromisso e maturidade para discutir como professor e colegas, nesse caso, pode ser a melhor aula do mundo. Quando fui aluno na graduação era exatamente assim, o professor entrava e perguntava o que achamos do texto indicado na aula anterior, o que para mim nunca deixou de ser prazeroso e interessante. Quando comecei a ministrar aulas percebi a necessidade de fazer uso de outros meios, até mesmo porque é outra época, outro público, outra realidade, mas sempre me preocupei de não tornar a aula um show, como muitos pensam que deve ser.

O tempo da aula nos permite fazer uso de várias tecnologias de ensino, e todas são válidas, quando bem aplicadas no momento correto e sempre de acordo com o conteúdo e o planejamento feito previamente, além de observar o acordo feito com os alunos no primeiro dia de aula.    



Escrito por Vandilo às 09h50
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




O GROTESCO NA TV

Muniz Sodré, juntamente com Raquel Paiva, escreveu um livro que se chama "O império do grotesco", este livro é muito relevante e esclarecedor. Ele nos mostra vários exemplos das bizarrices que acontecem o tempo todo na televisão brasileira e do mundo, assim como na vida em geral. Parece que as pessoas têm uma atração pelo grotesco, como o risível, o feio, aquilo que causa estranhamento, afinal, tudo que pode ser considerado ridículo.

Eu gostaria de chamar atenção para um fato que não se fala muito, não se considera e que acho preocupante. É verdade que todos os canais abertos de televisão trabalham com o grotesco para ganharem a guerra pela audiência, afinal já vimos que as pessoas parecem gostar. Exemplos de grotescos não faltam: Chacrinha, com o seu abacaxi ou bacalhau, mais recentemente o Programa do Ratinho, o Pânico, pastores expulsando demônios, a Márcia na Rede Bandeirantes, e muitos outros; os exemplos são infinitos, mas existe uma coisa interessante que diz respeito a Rede Globo, ela é a única que não trabalha nessa perspectiva, apesar de muitas outras críticas que podem ser feitas a sua programação. Percebo que existe um esforço em não aderir a esse tipo de apelo na emissora carioca. Isto é bom por que para quem não dispõe de tv por assinatura, restam pouquíssimas opções, apenas as Tvs Brasil e a Cultura. A Rede Globo consegue em muitos momentos ter uma programação agradável, como as minisséries ou simplesmente pelo cuidado estético que eles tratam a sua imagem. A minha preocupação diz respeito ao crescimento desenfreado desse tipo de apelo, parece até que a população gosta, mas sabemos que isso não é verdade. A falta de opções leva as pessoas a darem audiência a esses programas de mau gosto, acreditando que aquilo é bom ou simplesmente engraçado.

É uma pena, porque existe muita coisa bonita e importante para se mostrar por essa janela que insiste em se abrir para o lado do lixão.  

   

 



Escrito por Vandilo às 16h55
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Politicamente correto

Em meio a um comentário na internet sobre os relacionamentos no mundo contemporâneo, encontrei uma frase de Danuza Leão que achei muito boa e vou comentar um pouco sobre os motivos que provavelmente levaram-na a pensar assim. A frase é a seguinte: "Politicamente correto e existencialmente sem graça". Ela se referia ao excesso de regras nos relacionamentos e, portanto, ao perigo de perdermos a espontaneidade no tratamento com as pessoa e em todas as formas de relacionamento social. Primeiramente, quero deixar claro que sou totalmente a favor da boa educação, da tolerância às diferenças, da civilidade, de não se jogar lixo nas ruas, nem de jogar fezes em ninguém. A minha preocupação é de que esse excesso de regras nos deixe engessados, já que por outro lado, e talvez, em decorrência do efeito do politicamente correto e em nome do combate à violência, a privacidade tenha acabado. Uma coisa está diretamente relacionada a outra. Evitar que se cometa abusos contra o indivíduo, é o intuito principal do politicamente correto, mas vemos que o Estado agora busca ocupar o lugar que antes era da educação familiar; do aprendizado sobre o respeito pelo ser humano que acontecia no processo de socialização dentro de casa e, que agora tem acontecido, por exemplo, na escola quando os pais cobram dos professores que  cumpram o seu papel, não apenas como professores mas como pais. É uma loucura, uma inversão de valores em circunstâncias perigosas. Confesso que ainda tenho muito o que pensar sobre tudo isso, preciso digerir melhor e aprender a conviver com a vigilância generalizada. A máxima é que "todo mundo vigie todo mundo",  em nome do controle da violência e da falta de humanidade (?). Aliás, será que é possível falar em humanidade no Capitalismo? Outro dia, uma amiga minha comentou que se o demônio existe, ele é o Capitalismo.

Acho que muitas injustiças ainda irão acontecer. As intenções do politicamente correto em muitas situações é um paradoxo, mas vejo que isso é possível devido a realidade de uma sociedade marcada pela competição e uma vontade desesperada de chegar  ao ponto mais alto e inatingível do consumo, não importando quem esteja pela frente. Acredito que muitos pedidos de indenizações por assédio, abusos e estupros, é um exemplo disso, ou seja, um aproveitamento de certas situações que podem render dinheiro, simplesmente isso, nada a ver com trauma, honra ou preocupação com valores humanos.

Nos anos 80 falava-se em politicamente correto como algo distante; uma onda de comportamento dos burgueses e da classe média nos Estados Unidos. Entre nós, aqui no Brasil, naquela época, ainda falávamos de Socialismo e solidariedade. Nos anos 90, essa onda chegou com força total e a minha preocupação, é de fazer uma reflexão se estamos preparados para conviver com ela. Se pensarmos na grande parcela da população que não tem acesso à escola e que não consegue distinguir o sentido de muitos termos e conceitos, vemos que pode ser muito difícil atendermos ao apelo do politicamente correto, de cumprirmos todas essas regras e princípios já que questões culturais não se apagam por decreto. Para a classe média, plugada com todas as novidades do mundo atual, tudo bem, pode ser diferente, mas no geral da população - a massa, não é tão fácil ou simples assim. Muitos irão sofrer e causar sofrimento a outros por desconhecimento ou propositalmente. Ou será que todo mundo sabe explicar o que significa tolerância; o que é diversidade cultural e respeito à diferença? Agir com convicção exige preparo e muita reflexão. É preciso muitas aulas de Sociologia, Antropologia e Ética para as pessoas se familiarizarem com essas terminologias e tornarem isso uma prática cotidiana. Falo isso porque percebo que nas salas de aula na universidade, para a classe média, a mesma a qual me referi anteriormente, ainda encontramos muita ignorância e falta de respeito,isto é, intolerância; quando deveria ser este um lugar e momento no qual nada disso deveria acontecer, tal desconhecimento ou falta de interesse para dicussão entre os universitários ainda é muito forte. Aliás, quem anda de carro e joga lixo pela janela é ela, a classe média, que deveria dar exemplo de civilidade. Não estou generalizando nem gosto de fazer isso, evito o máximo cair nas armadilhas das generalizações; aprendemos nos estudos de metodologia em Ciências Sociais que esse não é o melhor caminho para compreendermos uma realidade. Portanto, vejo que existe muito a ser discutido sobre a validade dessas máximas do politicamente correto, principalmente em sua pretensão de colaborar com o bem estar e o respeito aos valores humanos.      

 

Abril, tempo de muito calor em Palmas...



Escrito por Vandilo às 15h28
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Salão do Livro do Tocantins

Já estamos na sexta edição do Salão do Livro no Estado, mas foi o primeiro ano que participei de forma mais efetiva, embora não tenha lançado nenhum livro, nem dado nenhuma palestra, considero que paricipei mais porque estive lá mais vezes. Todo ano compareci e comprei alguns livros, mas este ano tive mais disposição para circular pela suas alamedas e assistir a dois momentos consideráveis. O primeiro, foi o show na quarta-feira à noite de Edson Cordeiro, simplesmente deslumbrante, gostei demais, ele que andava meio fora da nossa mídia, reapareceu ainda melhor, cantando como ninguém, com um repertório maravilhoso, um artista completo com uma voz invejável. Aliás, houve uma palestra de uma psicóloga paranaense que tratava justamente da inveja e o que deve ser invejável, nesse caso, o Edson Cordeiro tem tudo para ser um talento naturalmente invejável.

Outro momento interessante foi a presença de Leda Nagle, apresentadora do Sem Censura na Tv Brasil, sua simpatia e experiência nos deixa com água na boca. Como é bom ouvir gente inteligente! Pelo que observei, este ano confirmou minha análise de que o povo tocantinense é muito carente de eventos culturais; quando falo o povo tocantinense me incluo nele também, significa nós que vivemos aqui; não foi atoa a recepção calorosa dada a Leda e outros palestrantes, não é só um calor humano, mas um verdadeiro frenesi, uma festa. 

Sou totalmente favorável a esse tipo de evento, embora ache que poderia vir mais autores de renome nacional e internacional, em detrimento das estrelas midiáticas que falam tanto em auto-ajuda. Outro aspecto que merece uma crítica é o espaço no qual se realiza o salão, aquela tenda caríssima, dá muito o que falar e não é atoa, uma estrutura diferente podeira ser pensar para o próximo ano, mais barata e segura. O salão foi um sucesso e curti muito estar por lá, tomara que ele continue.

 



Escrito por Vandilo às 10h36
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Concepção de sociedade, homem e educação

 

Podemos afirmar que viver em sociedade é viver interagindo com os outros seres humanos e que é a partir dessa interação que nos tornamos quem somos. Uma relação de troca à medida que construímos com o outro, que nos é diferente e igual ao mesmo tempo, um grupo social com características próprias, jeito de ser e pensar compartilhados; isto é, um projeto cultural que se faz existir na luta pela sobrevivência.

Entre vários conceitos de sociedade que encontramos na literatura referente às Ciências Sociais, podemos destacar um que afirma ser a sociedade um conjunto de relações recíprocas de comunicação ou de comunhão. Estado dos homens ou dos animais que vivem sob a ação de leis comuns[1].

Organizar o caos é tarefa do ser humano. Ao transformar a natureza de acordo com os seus desejos e necessidades, ele vai dando forma a sua cultura que, por sua vez, marca a diferença entre os povos. Isto significa que somos diferentes, não pelos aspectos biológicos, tais como as características físicas de cor da pele, por exemplo, e sim, pela produção de objetos materiais e as representações mentais sobre o mundo.

O trabalho é o meio que o homem encontrou para concretizar os seus desejos de ter uma vida mais significativa e tranqüila, condizente com os valores escolhido coletivamente. O homem isolado não encontra sentido ou motivação para viver. Vemos que “o homem só é completo quando sente que o seu trabalho não é somente útil para ele, mas também para sua família e para a sociedade”. (OLIVEIRA, 1999. p. 27)[2]

A concepção de homem se faz través do trabalho nas relações com os outros semelhantes, nesse jogo de negociações de sentidos o homem está buscando encontrar e deixar no ambiente natural a sua marca enquanto ser pensante/racional.

 

Não há o que caracterize mais a condição humana do que a capacidade de conhecer, de construir compreensão sobre os meios e os processos necessários para a organização e a facilitação do ato de viver. O conhecimento, produto da atividade consciente do pensamento, estabelece a natureza social do ser humano e o condiciona a sua história e a sua cultura. (FERREIRA, 2003. p. 17)[3]

 

Portanto, é a capacidade de conhecer que torna o homem um ser criativo e diferente dos demais, mas isso só é possível em sociedade, ou seja, apenas em grupo o homem consegue exercer essa capacidade em toda sua plenitude. O ser humano em sua fragilidade é totalmente dependente de outro ser humano. Inventamo-nos enquanto humanos a partir do processo de socialização. Desde crianças aprendemos e apreendemos a cultura do grupo social a que pertencemos numa transmissão informal de costumes e hábitos repassados inicialmente pelos nossos pais.

O conhecimento produzido pelo homem ao longo da história precisa ser repassado às próximas gerações e com isso perpetuar tradições para integrá-lo a ao grupo a que pertence desenvolvendo suas potencialidades e as da própria sociedade. Assim, de acordo com Oliveira, (1998. p. 11)[4], a educação é o processo pelo qual a sociedade procura transmitir suas tradições, costumes e habilidades, isto é, sua cultura aos mais jovens. A criança se torna socializada porque aprende as regras de comportamento do grupo em que nasceu. A educação é uma socialização.

É preciso saber que toda construção social da realidade existe a partir de um processo situado num contexto histórico e sociocultural, significando que em cada época de nossa trajetória temos um tipo de ser humano, portanto, o homem que trabalha a terra e vive em pequenas aldeias não é o mesmo que vive nas grandes cidades e que consume produtos industrializados, assim como, o homem iletrado também não é o mesmo que consegue registrar através da escrita os seus feitos.

Segundo Giddens, (2001. P. 396[5]), “durante séculos a educação formal esteve disponível apenas para uma minoria que dispunha de tempo e de dinheiro para dedicar-se aos estudos. A leitura não era uma atividade necessária e nem mesmo útil na rotina diária de muitas pessoas. Para a vasta maioria da população, crescer significava aprender, por meio da imitação, os mesmos hábitos sociais e experiências práticas de trabalho dos mais velhos”.  Somente com o advento da sociedade moderna é que a educação formal, como estabelecimento de ensino da forma como conhecemos atualmente, passou a fazer parte da vida cotidiana das pessoas. Foi o processo de industrialização que trouxe a necessidade de uma formação mais sistematiza e técnica para os trabalhadores. Não devemos esquecer que a Era Moderna com a mecanização do tempo produzida pelo Capitalismo e o trabalho na indústria, também levou o homem a se afastar da natureza ao valorizar o ter em detrimento do ser.

Dessa forma, a educação tem, entre outras coisas, o papel de organizar a nossa capacidade de criar, apontar diretrizes, métodos que possam aprimorar e ajudar a transformar com segurança a realidade na qual estamos inseridos. A curiosidade e o entusiasmo pelo novo são fundamentais para que possamos transformar os valores obsoletos em outros mais condizentes com os anseios de cada sociedade. Portanto, podemos afirmar que a educação serve para solucionarmos problemas e, que assim, possamos melhorar a nossa qualidade de vida.

 



[1] SANTOS, Washington dos. Dicionário de Sociologia. 2. Ed. Belo Horizonte: Del Rey, 1995.

[2] OLIVEIRA, Silvio Luiz de. Sociologia das organizações: uma analise do homem e das empresas no ambiente contemporâneo. São Paulo: Pioneira, 1999.

[3] FERREIRA, Delson. Manual de Sociologia. 2. Ed. São Paulo: Atlas, 2003.

[4] OLIVEIRA, Pérsio Santos de. Introdução à Sociologia da educação. 3. Ed. São Paulo: Atlas, 1998.

[5] GIDDENS, Antony. Sociologia. 4. Ed. Porto Alegre: Artmed, 2001



Escrito por Vandilo às 09h01
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Os papangus de Bezerros

O ano vai começar a partir de amanhã quando termina o carnaval. Por mais que se trabalhe nos meses de janeiro e fevereiro, ou mesmo quando  não caimos na folia, o ano só engata mesmo depois da quarta-feira de cinzas, isso não é novidade para ninguém no Brasil, de norte a sul todo mundo de alguma forma curte o carnaval e espera por ele o ano inteiro. Eu particularmente gosto muito mas este ano optei por ficar em casa, nem sempre foi assim, nem será sempre assim, fiquei em casa acompanhando pela televisão e me preparando para o próximo que não quero perder, afinal é sempre bom uma diversão ainda mais se for em Olinda, Recife ou Bezerros.

Para quem não sabe, Bezerros é uma cidade do interior de Pernambuco que tem por tradição a brincadeira do papangu no seu carnaval. Lembro-me do quanto essa figura mascarada assusta as crianças com a magia da assombração e do desconhecido. O papangu tem a caracteristica de sair pelas casas pedido comida, dai o seu nome, ou seja, aquele que papa o angu. Ele na verdade é um adulto que retrata uma criança, por isso ser comum encontrarmos muitos com uma chupeta na boca.

O carnaval de Bezerros está crescendo a cada ano e chamando a ateção da midia nacional. Ontem fiquei encantado quando vi pela televisão as ruas da cidade tomadas por papangus coloridos, cada um mais eufórico do que o outro, cada um com uma característica própria, e ai me veio a lembrança de que existe também outro significado para a expressão papangu: quando alguém se refere a outra pessoa como boba, desajeitada, desprezível, e até mesmo otária; é comum chamá-la de papangu, isso faz com que essa expressão tenha lugar garantido no vocabulário do nordestino não só durante o período do entrudo, mas o ano inteiro, já são muitos os papangus que atravessam nossa vida em todas as suas esferas; a política, por exemplo, está cheia de papangus, um deles está preso em Brasília e perdeu o carnaval.     



Escrito por Vandilo às 11h54
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Palmas uma capital pós-muro

 

Este ano de 2009 marca os vinte anos de aniversário da queda do muro de Berlim, fato que para muitos é motivo de comemoração enquanto para outros é motivo de lamento e saudosismo, mas independente da nossa opinião sobre a queda do muro devemos lembrar que ele era o símbolo da separação entre o mundo capitalista e o chamado socialismo real liderado pela antiga União Soviética, uma época de fortes ideologias.

Este ano marca também o aniversário de nossa capital Palmas a mais nova capital de um estado no Brasil, o Tocantins. Nossa capital nasceu com a pretensão de ser acética e pasteurizada, mas essa é apenas uma meia verdade, tendo em vista que o cotidiano nos mostra todo dia problemas que não estavam previstos no seu planejamento, basta uma chuva forte ou uma olhada mais atenta para a sua periferia ou na estatística dos acidentes no transito. Palmas como “capital das oportunidades”, juntou gente de todos os lugares do país para se resolverem e se entenderem, uma busca ainda constante e frenética de chegadas e saídas, de expectativas frustradas e realizadas, de olhares arredios e amizades distanciadas que mais demonstram o traçado do plano urbanístico da cidade. Um lugar para o automóvel. A fragmentação e dispersão das pessoas é uma contradição que pode não ser ruim nem boa, mas justificável e compreendida a partir dessa nova ordem mundial em que vivemos; a sociedade do desencaixe e do fluxo como dizem os sociólogos contemporâneos. Afinal, agora ser feliz é apenas existir enquanto individuo.

Pensando no pós-muro, no capitalismo, na globalização, em Palmas e nos costumes das pessoas dessa época de alta modernidade podemos ver uma juventude dependente da internet e do consumismo, que tem um jeito de ser que se traduz no modo descolado-chique, hippie de boutique, espontâneos de espelhos em casa e nas vitrines, top evangélicos. Recém saídos do curral para o shopping. Tentando ser politicamente corretos e preocupados com o meio ambiente. Tudo verdade e mentira ao mesmo tempo; tempo esse das tribos como diz Michel Mafesoli, do gueto, do micro, do fashion e do tudo ao mesmo tempo agora. Cosmopolitas do cerrado à floresta. Novidades que vêem e vão, apoiadas no contexto de uma época marcada pelas interdisciplinaridade, transdisciplinaridade, pluralidade e multiculturalismo.

O mais importante nessa nova ordem mundial talvez seja que o novo e o velho não se escondem mais, estão se conectando, tentando se relacionar e se respeitar para existirem.



Escrito por Vandilo às 18h00
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Humano, demasiado humano

 

O título deste texto é uma referência ao livro homônimo de Nietzsche, um livro muito oportuno para o que quero comentar aqui. Quando vou explicar algo sobre o ser humano em sala de aula, gosto de dizer, que o ser é o biológico – nossa porção animal, enquanto o humano é o que temos de cultural, ou seja, os valores, as regras, a subjetividade. Parece simples, e é. Mas ao mesmo tempo precisamos abstrair essa categoria para podermos realmente compreender quem somos, se é que seja possível saber em sua totalidade.

Somos seres complexos e dentro do emaranhado de relações em que nos encontramos, um simples gesto passa a ter vários significados, vários sentidos e poderes. Vamos pensar no ato de sentar-se, esse simples ato é por demais humano, cheio de significados a partir do contexto social e cultural e até mesmo político. Existe uma foto de Lampião com Maria Bonita em plena caatinga na qual Maria Bonita está sentada com uma pose aristocrática, a observação não foi minha e sim da professora e historiadora Jaqueline Herman ao comentar sobre o tema da tese do nosso colega Marcos Clemente que estuda as fotos que registram o fenômeno do Cangaço no Nordeste. O interessante no comentário da professora é que podermos observar que ao sentar estamos comunicando algo, estamos fazendo pose, racionalizando um gesto que aparentemente é apenas de descanso, mas que pode ser uma demonstração de poder, assim como acontece com o tom da nossa voz; uma voz forte ou fraca que pode ser identificada como uma a voz do colonizador ou do colonizado e, portanto, dominado ou não.

A vingança é também um ato por demais humano se pensarmos que só o homem é capaz de prepará-la. Cristina Costa no seu livro de Sociologia tem um capitulo sobre a violência humana no qual ela conceitua violência como sendo a "agressão premeditada, sistemática e por vezes mortal de um individuo ou grupo sobre outro”. Desse modo, diz ela, "os ataques entre animais não têm um caráter particular individual ou de premeditação, como a violência praticada pelos homens contra outros membros de sua espécie". Para ela, a violência não é instintiva, mas universal, o animal usa da violência apenas como defesa sem premeditação, para eles, a violência é uma reação instantânea bem diferente do que acontece conosco.

O que pretendo destacar é que o que nos faz humano é sempre algo muito específico e singular, mais ainda quando pensamos em culturas diferentes, e, nesse caso, o detalhe faz grande diferença e justifica até mesmo a existência de preconceitos que se enraízam nas pessoas. Somos iguais biologicamente, o que nos faz realmente diferente é a cultura, isto é, a maneira como construímos nosso jeito de olhar o mundo e através da cor dessa lente que usamos para traduzir as coisas em sensações diversas temos o tom do que podemos chamar, então, de realidade. Portanto, são os conceitos elaborados em nossa mente que nos ajudam a perceber o mundo, enquanto os nossos olhos são apenas instrumentos pelos quais apreendemos o que se apresenta a nossa frente.

Voltando a Nietzsche, no livro citado anteriormente, ele afirma sobre o mais feio – é duvidoso que o homem mais viajado tenha encontrado em alguma parte do mundo regiões mais feias do que no rosto humano. Podemos a partir dessa citação reafirmarmos nossa impressão de que a visão do homem é sempre contextualizada no tempo e espaço e que é humano sentir raiva, vergonha, preguiça, excitação, nojo, alegria e tantos outros sentimentos que não cabe aqui enumerá-los. Atrai-me muito observar e tentar analisar as expressões mais estranhas e por muitos consideradas bizarras ou anacrônicas. Quanto de humano existe no estranho que foge a regra? Isto me chama atenção.  



Escrito por Vandilo às 16h34
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]


[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]


 
Meu perfil
BRASIL, Norte, PALMAS, PLANO DIRETOR SUL, Homem, de 36 a 45 anos, Música, Cinema e vídeo, Livros
MSN - jvsantos8@hotmail.com
Histórico
Outros sites
  UFT
  blog do João Nunes
  blog do jomarricardo
  Cultura popular
Votação
  Dê uma nota para meu blog